Aos 14 anos, eu tinha um sonho muito claro: ser jogador profissional de FPS.
Pode parecer ingênuo. Mas pra mim, naquele momento, era a única coisa que fazia sentido. Eu sou daqueles que quando gosta de algo, vai fundo de verdade — com uma intensidade que pode parecer obsessão pra quem olha de fora. E foi exatamente isso que aconteceu. O jogo não era só passatempo. Era propósito. Era identidade. Era o motivo pelo qual eu acordava.
O tempo foi passando. Mudei de jogo, mas a vontade de viver daquilo não mudou. Só que o mundo ao redor começou a apertar. Meus pais não apoiavam. A pressão aumentava. E eu não sabia lidar com a negação — nem com a ansiedade que vinha junto, nem com a depressão que foi chegando quieta.
Tudo explodiu quando eu tinha entre 17 e 18 anos.
Foi meu pai quem disse, com a objetividade cruel de quem ama e não sabe como dizer diferente: “isso jamais vai pagar suas contas. A vida real não é assim.”
E eu acreditei. Engoli. E dali em diante decidi fazer o que seria o “certo”. Queria agradar a todos. Não queria causar confusão. Não queria ser problema pra ninguém.
Só que quando eu abri mão daquele sonho, uma parte de mim foi junto. E eu não sabia como encontrá-la de volta.
A pergunta que mudou tudo
Eu trabalhava na sapataria do meu pai. Um dia, um cliente me perguntou o que eu queria ser. Na época eu pensava em psicologia — já tentava entender as pessoas, entender a mim mesmo.
Ele ouviu e disse: “Você vai precisar de filosofia. Você gosta?”
Eu disse que sim — já lia algumas coisas, sempre tive um pensamento mais analítico. Ele me indicou o canal Café Filosófico e me disse pra começar pela série sobre os pecados e prazeres capitais.
A primeira aula era do professor Leandro Karnal. O tema: vaidade.
Eu não esperava muito. E saí completamente diferente de como entrei.
Karnal fez algo que eu nunca tinha visto: pegou um conceito que eu achava que entendia — a vaidade como algo ruim, ponto final — e virou pelo avesso. Mostrou seus lados, suas contradições, sua utilidade escondida. E de repente eu me vi ali dentro da análise. Porque eu sempre enxerguei o mundo assim: não como preto no branco, mas como algo que só faz sentido quando você olha de ângulos diferentes.
Pela primeira vez, alguém estava descrevendo minha forma de pensar. E dando nome a ela.
O que a filosofia fez por mim — e o que pode fazer por você
Não foi uma virada instantânea. Foi uma construção. Lenta, às vezes dolorosa, sempre honesta.
O maior presente que a filosofia me deu foi a consciência. Sobre o mundo. Sobre as pessoas. Sobre mim mesmo. Entender como fui construído pelas minhas experiências — a infância, o sonho abandonado, a pressão de agradar, a sensação de vazio — tudo isso passou a ter uma forma que eu conseguia olhar sem me perder nela.
A filosofia me tornou mais lógico nas decisões. Mais presente nas crises. Menos refém das expectativas dos outros.
Mas vou ser honesto: isso tem um custo. Quando você começa a enxergar com mais clareza, não dá mais pra fingir que não vê. E isso pode ser desconfortável — pra você e pra quem está ao redor.
Pra alguns, isso é um malefício. Pra mim, foi a única forma de viver com integridade.
Por que este blog existe
Se você chegou até aqui, provavelmente sente algo que é difícil de nomear. Pode ser aquela sensação de estar fazendo tudo certo e ainda assim se sentir vazio. Pode ser a pressão de metas, de dinheiro, de expectativas que não são suas mas que você carrega como se fossem. Pode ser só a sensação de que existe algo mais, mas você não sabe onde procurar.
Eu já estive aí.
O Dose de Filosofia não é um blog acadêmico. Não vou aqui listar escolas filosóficas ou debater a natureza do ser por debater. Aqui a filosofia é tomada como remédio — em doses — para quem está com os olhos sujos de terra e precisa enxergar de novo.
Uma dose por vez. No ritmo que você consegue absorver.
Seja bem-vindo.